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24 de outubro de 2013

Minha primeira Barbie

Um comentário:


Lá em casa era cheio de tabus. O Natal pra mim era a pior época do ano. Não podia pedir Barbie, panelinha, maquiagem, filme da Disney, nada disso. Eu nunca ganhava nada do que eu queria - só algumas roupas sem graça, bola, videogame, jogo de tabuleiro, essas coisas. Acho que eu tinha todos os jogos de tabuleiro do mundo, de tanto que eu ganhava. Aos 4 anos já não acreditava mais em Papai Noel.
Quando eu ia com a minha mãe nas Lojas Americanas, sempre passava de fininho no corredor das Barbies, só para admirar um pouco. Elas eram tão bonitas. Depois, eu perguntava para a minha mãe:
- Mãe, por que eu não posso ter uma Barbie?
- Minha filha, as meninas que brincam de Barbie, quando viram mocinhas, querem ficar magras iguais à ela e, por isso, acabam fazendo coisas malucas e ficando doentes. Elas deixam de comer, ou às vezes vomitam depois de comer.
Aquilo não fazia sentido para mim. Eu olhava para todas as minhas coleguinhas e suas coleções de Barbies e não conseguia imaginá-las fazendo aquilo depois de crescidas. Às vezes, eu perguntava se elas tinham vontade de ficar igual à Barbie. Algumas diziam que sim, porque ela era muito bonita. Outras diziam que não, porque não gostavam de cabelo loiro. Outras diziam "sei lá, ela é só uma boneca".

Na escolinha, sempre que tinha teatrinho, aula de culinária, contação de história, brincadeira de fantasia, minha mãe ia lá e brigava com a professora. Dizia que ela estava "estragando" a minha educação. Eu morria de vergonha quando ela fazia isso. Eu gostava das atividades. Aos poucos, a escola foi deixando de fazer essas coisas legais.

Antes de dormir, eu pedia para ela me contar histórias, mas depois fui desistindo de pedir. As histórias da minha mãe eram chatas. Eu gostava de histórias de fantasia, com fadas, bruxas, duendes, magia. Minha mãe ficava contando a biografia de umas tais de Amelia Earhart, Rosa Luxemburgo, Marie Curie, Rosa Parks, que eram um saco. Eu não conseguia entender a graça que ela via nessas histórias, parecia mais uma aula.

Depois que eu fiz uns 5 anos, ela disse que era melhor eu parar de usar vestido e saia, porque era desconfortável quando eu quisesse brincar de correr, esconder, pular - e ela também não queria ficar lavando. No início eu até gostei, porque realmente era mais confortável. No entanto, nas festinhas, todas as meninas estavam lindinhas, de vestidinho, cachos e lacinhos - e eu sempre de camiseta suja, rabo de cavalo e shorts. Me sentia feia ao redor delas. Uma hora, também, minha mãe decidiu que não ia mais comprar coisa rosa para mim, porque era "cor de menininha". Eu não entendi. Eu era uma menininha.

Depois da festa dessa menina chamada Yasmin, cujo tema era o da Bela Adormecida, eu voltei para casa chorando. A Yasmin tinha tudo o que eu queria e que a minha mãe não me deixava ter. Minha mãe entrou no quarto perguntando qual era o problema, e eu falei que estava brava com ela. Que ela não me amava de verdade, que ela preferia que eu tivesse nascido menino. Ela se sentiu culpada e resolveu me dar um presente incomum - ela me deu o filme da Cinderela. Eu fiquei muito feliz. Assim que eu cheguei em casa, fui ver. Via todos os dias. Mas começou a ficar insuportável assistir depois de um tempo. A cada segundo, minha mãe chegava e falava:
"Viu, filha, como a Cinderela é boba de ficar obedecendo a madrasta desse jeito em vez de fugir?" ou
"Se ela fosse mais esperta, ia arranjar um emprego e se mudar logo daí" ou
"Você acha mesmo que ela ficou bonita com esse vestido todo empiriquitado?" ou
"Você sabe que não dá pra se apaixonar por alguém só porque dançou com ele, né?" ou
"Aposto que o príncipe vai fazer ela trabalhar igual a madrasta fazia" ou
"Ou então ela vai virar uma mimada e tratar as empregadas do castelo igual a madrasta fazia com ela".
Eu já tinha cansado. Comecei a parar de obedecer minha mãe desde esse dia. Ia para a casa das amigas brincar de Barbie e casinha em segredo. Na minha listinha de Natal, que eu não deixei minha mãe ver, só pedi coisa que ela proibía e alguns vestidinhos bonitinhos também. Cansei de brincar de bola, de correr e de pular, porque alguma menininha metida falou que eu parecia um menino gostando dessas coisas e isso me afetou muito. Eu não queria parecer um menino, eu queria parecer eu mesma. Quando minha mãe perguntava o que eu queria ser, eu sempre respondia "presidente", mas, só de raiva, passei a responder "atriz e modelo", para ela ter uma daquelas crises dela.

E aconteceu a vingança. No Natal, eu estava super feliz, cheia de expectativas. Ajudei meus avós a arrumar a casa, assar o peru e tudo. Hora dos presentes, primeiro presente:
um livro sobre sexualidade. Fiz careta, minha mãe ficou toda sorrisos. "É para tirar as suas dúvidas", ela disse. Mas que dúvidas?
Segundo presente, um jogo de tabuleiro. Outro?
Terceiro presente, um jogo de lápis de cor. Mas eu já tinha bastante isso...
Último presente, um boné sem graça.
Fui correndo para o banheiro chorar. Perguntei para a minha vó porque eu não ganhei nada que estava na listinha. Ela disse que tinha pedido autorização para a minha mãe para comprar aquelas coisas e ela não deixou nada. Eu chorei mais ainda. Quis dormir na casa da vovó porque estava muito irritada com a minha mãe para sequer ficar perto dela.

Acordei com o barulho da minha vó fazendo café. Fui meio sonolenta até a cozinha, onde haviam város pacotes de presente. Meu vô, que estava sentado lá, disse:
- Parece que o Papai Noel esqueceu alguns presentes no telhado ontem.
Tinham uns cinco pacotinhos ali. Abri um por um na maior pressa. O primeiro era um vestido.
O segundo, um livro de contos de fadas.
O terceiro, minha primeira Barbie.
O quarto, um conjunto de panelinhas de brinquedo.
O quinto, outra Barbie, mais chique, daquelas com o cabelo que muda de cor.
Dei o maior sorriso do mundo, mas pensei que assim que a minha mãe visse isso ia querer jogar tudo fora. Então minha vó os deixou na casa dela, e fui cada vez mais frequentemente para lá. Às vezes, dava saudade de jogar bola, videogame, correr, pular. Então era só ir para a casa da mamãe que eu podia brincar disso à vontade. Foi a primeira vez que eu me senti livre na vida.

25 de agosto de 2013

Confusão

3 comentários:


Faziam uns cinco meses que Ela havia morrido. Overdose. Ela tinha apenas 19 anos de idade.
Taís estava tendo a conversa que nunca queria ter com o seu namorado. Estavam juntos há uns 3 anos e se amavam muito. Pelo menos era o que ela achava.
Ele olhou nos olhos cheios de lágrimas dela e perguntou:
- Taís, me responde logo. Você já me traiu?
- Isso depende.
- Do quê?
- O que você considera traição?
- Primeiro, eu pensei que você tinha beijado um garoto nesse tempo, ou até que tinha um caso com ele, o que me faria terminar com você imediatamente. Mas então eu pensei, pelas evidências, que pode ser que vocês nunca tenham tido esse tipo de contato, você poderia estar apenas apaixonada por ele. No entanto, eu me sinto traído mesmo assim, pois achei que você só amava a mim... e dói tanto... Taís, por favor, me diga se é verdade.
- Se o quê é verdade?
- Você esteve apaixonada por outro garoto durante nosso namoro?
Ela pensou e disse, sinceramente:
- Não.

Você, leitor, deve estar pensando por que ela hesitou em falar a verdade. Bem, ela nunca havia beijado outro garoto. Nunca havia se apaixonado por outro garoto. Por outro garoto.

Ela tinha 17 anos quando se apaixonou pela segunda vez. Festa de formatura da irmã de uma amiga. Como estava sozinha, foi apresentada a outra garota. Ela. Ela e ela conversaram a festa inteira e se deram muito bem. Naturalmente, como a maioria dos adolescentes lá, estavam bêbadas. O que Ela não sabia era que aquele era o primeiro drinque que Taís já havia tomado na vida. E também não sabia que ela tinha um namorado ciumento e preocupado, desesperado porque sua amada não atendia o celular em meio à barulheira. Taís perguntou se Ela conhecia um lugar mais vazio e menos barulhento na casa de festas para poder atendê-lo. Sim, Ela conhecia. Levou-a lá. O namorado não atendeu, pois provavelmente foi tomar banho ou algo assim. Ela acariciou seus cabelos e perguntou com quem Taís estava tentando falar.
- Com... meu pai - respondeu, sem saber exatamente por que estava mentindo.
Ela disse para deixar para lá e ligar para ele depois, que Taís precisava se divertir ao invés de ficar igual a um bebê ligando para o pai. Ela era apenas um ano mais velha, mas uns dez anos mais experiente e dez vezes mais imatura. Fazia tudo sem pensar - ficava com todos os garotos, experimentava todas as drogas e bebidas, fazia tudo que lhe vinha à cabeça. Taís, pelo contrário, era extremamente certinha e reservada, com o comportamento de uma mocinha do século XIX. Ela ficou extremamente atraída pelo modo em que Ela conseguia ignorar as preocupações e não se importar com as consequências. Queria ser Ela. Queria agarrá-la. Mas tudo que conseguiu fazer foi deitar a cabeça em seu ombro.

Ela, já sem medo de nada e com muita vontade, passou a mão por sua cintura e acariciou o corpo de Taís. Taís disse que Ela era a garota mais bonita que ela já havia visto. E na mesma hora as duas se beijaram de maneira selvagem, com muita vontade. Taís não estava nem mais entendendo suas ações.
Ela ligou no dia seguinte. Queria sair, conversar mais. Pelo que Taís interpretou, aquela havia sido apenas uma "ficada amigável" para Ela. Como dar um selinho nas amigas de brincadeira, mas de maneira mais radical. Taís ficou feliz de poder ser amiga daquela garota. Quem sabe, até poderia aprender a deixar de ser tão meiga e certinha sempre.
No mesmo dia, ficaram de novo com ainda mais intensidade e paixão. E tais encontros continuaram.
Taís já não dava mais muita bola para o namorado. Cancelava planos para sair com Ela. Ele sempre achava bom que ela fizesse amigas novas e não se importou muito. Taís estava obcecada. Não queria beijar mais ninguém, não pensava em mais ninguém, queria ir para todas as festas em que Ela estivesse, sentia necessidade de tocá-la e beijá-la o tempo todo. Estranhamente considerava tudo isso "amigável", pois a possibilidade de que ela fosse lésbica nunca passou pela sua cabeça.

Um dia Taís descobriu que Ela estava ficando com muitos outros garotos e garotas, e inclusive com os dois juntos. Quis participar, mas não aguentou de tanto ciúme. Não conseguia mais imaginar Ela com outras pessoas sem ser com ela. E por isso parou de vê-la. Anotou tudo isso no seu diário, sem nunca dizer quem era a pessoa misteriosa.

E, nesse dia, cinco meses depois que Ela morreu, esqueceu por acaso seu diário aberto em cima da mesa, o qual seu namorado leu com desgosto. Ele viu que aqueles dias em que ela se afastou dele ela estava muito mais apaixonada. E, achando que Taís estava mentindo, terminou com ela com muita raiva.
Taís chorou. De medo, de tristeza, de incertezas. Seu namorado disse que ela estava apaixonada. Isso faria com que ela gostasse de meninas? Mas ela tinha certeza de que amava o namorado dela. Não era menina-macho, gostava de se vestir na moda, usar maquiagem, deixar o cabelo crescer. Não podia ser lésbica, não, ela era tão feminina, ela era uma garota comum demais para ser assim.
No entanto, ela se apaixonou por uma mulher mais intensamente do que por qualquer homem na vida.
O que seus pais iriam dizer? Quer dizer, ela tinha certeza que seus pais e seus amigos talvez ficassem surpresos, até porque ela teve um namoro de 3 anos, mas com certeza iriam aceitar. A família também aceitaria, exceto aquele tio chato e preconceituoso, talvez. Mas e ela mesma? Iria aceitar? Não conseguia olhar a própria imagem no espelho e se imaginar se relacionando com um monte de garotas. Ela era uma menina doce e meiga que quer ser a mulher do casal, ao lado do homem alto, forte e protetor. Não ao lado de uma mulher. A não ser que essa mulher fosse Ela.
Quando Ela morreu, Taís chorou e prometeu a si mesma nunca se envolver com nenhuma outra mulher. E agora, havia perdido os dois maiores amores de sua vida por causa de suas dúvidas. O que ela era? Bissexual? Maluca? Ela não sabia, e também não queria saber. Não queria que ninguém descobrisse o que ela passou. Mas não havia jeito.

No meio da madrugada, ligou para o namorado chorando e confessou tudo. Ela disse que apesar de tudo o que passou com Ela, ela ainda o amava muito e queria ele ao seu lado. Disse que não sabia o que sentir e não sabia quais suas preferências. A única coisa de que tinha certeza agora era de que queria ele.

No mesmo momento, passou pela sua cabeça que talvez Ela teria orgulho dessa atitude.

19 de agosto de 2013

Estranho amor

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Rodrigo nunca notou aquela menina na sala de aula antes. Era uma sala com tanta gente que ele nem tinha percebido a existência de algumas pessoas ali, inclusive ela, até que, no meio da aula, ela caiu da cadeira e fez um estardalhaço. Foi a primeira vez que ele viu seu rosto. Ele era agradável, bonito e estranhamente familiar.
Ela lembrava um pouco a sua irmã Gertrude, mas era muito mais bonita.
Era a primeira vez que ele se apaixonou. Ambos tinhas 13 anos.

Ele se sentia tão bem em olhar para ele. Era como se algo seguro e aconchegante o rodeasse. E ela era tão, tão linda! Ele passou a olhar apenas para ela em todas as aulas. Chegava a persegui-la junto com seu grupinho de amigas no recreio. Queria saber dela, cuidar dela, protegê-la. E então decidiu se aproximar.

Começou mandando bilhetinhos românticos para ela, os quais ela olhava assustada e jogava fora sem ler. Depois passou a mandar flores pelo correio. Nunca teve uma resposta. Será que botou o endereço errado? Deu um passo à frente. Na sexta-feira, convidou-a para ir ao cinema. Ela recusou, de uma maneira assustada e ao mesmo tempo gentil. Ele insistiu. Ela disse que não podia dar uma chance para ele, talvez nem sequer falar com ele. Óbvio que Rodrigo não entendeu.
Qual o problema? As amigas dela debochariam dele? Ela achava ele feio, ou chato? Os pais dela a proibiam de namorar? Ou será que ela inventou isso porque não gostava dele?

Rodrigo continuou insistindo. Mandava cartas apaixonadas e bombons. Tentava dançar com ela em festas. Se aproximou das suas amigas para puxar conversa. Um dia, ela lhe chamou num canto e lhe deu um beijo. Não um beijo apaixonado, mas um beijo de leve no rosto, como de mãe pra filho. Já foi o suficiente para fazê-lo feliz.
E no dia seguinte ela sumiu. Nunca mais foi à escola nem aparecia passeando pelo seu bairro. Suas amigas disseram que ela havia mudado de cidade.

Anos depois ele conheceu uma mulher muito parecida com ela e se apaixonou perdidamente. A amou mais do que qualquer outra pessoa que já havia aparecido em sua vida. Se casou com ela e teve uma simpática filhinha. Quando a menina completou 13 anos, ele entendeu porque nunca poderia ter ficado com a sua primeira paixão.

5 de março de 2013

Tempo psicológico

2 comentários:
A aula termina 12:30. Quando eu voltei do recreio, às 10 horas, passaram-se umas 5 horas e ainda são 11:50. Não é possível, aquele relógio deve estar quebrado. Ninguém mais reparou que a aula simplesmente está demorando demais? O professor já escreveu umas 5 páginas no quadro pra copiar, já explicou a matéria inteira, já fez as piadinhas sem graça de sempre, já fez a chamada e a aula nem está perto de acabar. Faltam 40 minutos. O que fazer em 40 minutos? Resolvo começar um desenho. O que eu posso desenhar? Não sei. Faço uns rabiscos e começo a desenhar uma menina brincando num parque. Tenho todo o cuidado de fazer os detalhes da trança dela, cobrir todo o seu vestido com uma estampa xadrez, desenhar a sombra de todos os objetos no chão, cobrir a cara dela de sardas, todos os detalhes possíveis e imagináveis. E, depois de meia hora fazendo isso, são 11:56.
Não é possível, não é possível!! Eu passei meia hora desenhando, no mínimo. E só se passaram 6 minutos, 6 minutos intermináveis e arrastados. O tempo está brigando comigo. Encaro o relógio para ver se ele fica com medo e resolve andar mais rápido. Não funciona. Fico mais um bom tempo de bobeira. 11:58.
Vou fazendo umas marcas no fim do caderno. 12:00, 12:05, 12:10, sempre de 5 em 5 minutos até chegar 12:30. Conforme o tempo passar, vou riscando. E o que eu posso fazer nesse tempo todo?
Resolvo ser uma boa aluna e fazer o exercício que o professor mandou. Página 46, exercícios 1 a 8. Fico uma boa meia hora só quebrando a cabeça para fazer o 1. Confiro a resposta: errei. Tento de novo. Erro de novo. Tento de novo e acerto. Devem ter se passado uns 20 minutos. Mas são 12:03, apenas. Exercício 2. Mais fácil que o primeiro. Finalizo-o 12:04. Espero mais um bocadinho. É 12:05. Estou com preguiça de fazer mais exercícios. Pego o celular da bolsa e fico jogando um joguinho. Eta joguinho entediante. Muito chato. É deprimente que eu precise jogá-lo para me entreter. No entanto, ele deve fazer 5 minutos passarem rapidinho. Mas ainda é 12:07. Quando vou guardar o celular para voltar a fazer o exercício, recebo uma mensagem. Opa!
É de um número desconhecido. Leio a mensagem: "aposto q vc não sabe qm ta falando". Respondo "não, qm é?" e, antes de guardá-lo, dou uma boa olhada pela sala inteira para ver quem está mexendo no celular. Afinal, a pessoa misteriosa pode estar dentro da sala. Assim que eu vou fechar o zíper, meu celular brilha de novo anunciando outra mensagem. Está escrito: "adivinha".
Impossível, não vi nenhum colega mexer no celular a aula inteira. Todos os possíveis suspeitos estão fazendo o exercício compenetrados, e alguns estão dormindo na carteira. Ah, não, dessa vez vou ficar de olho. Respondo algo como "diz logo qm vc é", guardo o celular e olho atentamente para a sala toda. Ninguém se mexe, o celular de ninguém apita. A pessoa pode nem ser meu colega, afinal. Pode ser o meu vizinho, ou alguém de outra turma. Vou me contentando com essa ideia, até que uma pessoa pega o celular. É um garoto que vive implicando comigo, fura a fila da cantina na minha frente e essas coisas. E, logo atrás dele, outra garota também começa a mexer no celular - a garota que me passou cola na última prova. Qual deles será? Espero a mensagem chegar. Ela chega. "to no mesmo lugar q vc agora, ja sabe qm é?". Não, agora eu não sei! Os dois não param de mexer no celular, pode ser qualquer um deles. Mas logo, logo eu vou descobrir, pois ainda tenho muito tempo de aula, afinal são... 12:27?? O quê, mas já??????? E aquele tempo que demorava tanto para passar, o que houve com ele? Ah, não, agora eu quero voltar no tempo e descobrir logo quem me mandou aquilo. Os dois continuam a mexer no celular. Não respondo a mensagem, espero um deles fazer uma expressão facial que demonstre preocupação. Mas nenhum deles faz. Pelo menos ainda tenho 3 minutos... o quê, já são 12:28? Dois minutos... se passa um segundo e já são 12:29... se passam 5 segundos e já é 12:30. A aula acabou, os dois guardam o celular e continuam com cara de despreocupados. E então eu ligo para a pessoa que me mandou a mensagem. Ela não atende.
Subo no ônibus. São 12:35. Se passam umas duas horas ali dentro, e eu pensando quem será que foi o bendito que escreveu a mensagem. Se passam umas três, quatro horas. Mas o ônibus nem dobrou a rua e ainda são 12:38.

4 de fevereiro de 2013

Complexo de Sônia

Um comentário:
Antes de eu viajar nas férias, minha melhor amiga Raíssa disse que estava animada porque, na nossa nova turma, ela iria estudar junto com as amigas de infância dela. Aí eu achei estranho. Amigas de infância? A Raíssa nunca mencionou qualquer "amiga de infância" que ela tinha, nunca me falou nada sobre isso. Ainda assim, resolvi deixar pra lá e pedi para que ela me apresentasse à elas, pois, se eram amigas da minha melhor amiga, tinha certeza que deviam ser garotas bem legais.
E então eu viajei. Quando voltei de viagem, a Raíssa se distanciou um pouco, parou de ligar. Tentei ligar para ela mais algumas vezes para nos encontrarmos antes das aulas, mas o telefone dava sempre ocupado, desligado ou então chamava, chamava e ninguém atendia. Foi estranho, mas por isso me animei no primeiro dia de aula para encontrá-la.
E, no primeiro dia, lá estava ela. Acabei chegando atrasada, depois que todo mundo já escolheu o lugar, e tive que sentar lá na frente, longe dela. No entanto, ela não parecia estar preocupada com isso. Na verdade, estava se divertindo muito em volta de umas 5 garotas que não paravam de falar, rir e trocar bilhetinhos. Nunca vi aquelas garotas na minha vida, então pensei que deviam ser as tais "amigas de infância" da Raíssa. Enquanto o professor foi ao banheiro, fui dar um oi para elas. Todas, inclusive a Raíssa, responderam com um "oi" sem vontade. Pedi somente para a Raíssa, então, não se esquecer de me esperar na sala até eu descer para o recreio.

Aula vai aula vem, o recreio chegou. E, enquanto eu pegava meu lanche, percebi que a Raíssa já tinha descido com todas aquelas meninas. Fiquei meio chateada, me perguntando se fiz algo de errado para a Raíssa estar agindo daquela maneira comigo. Mais tarde eu ligaria para ela para perguntar.
Desci e fui procurar ela e sua turminha. Estavam na frente da mesa de pebolim, numa rodinha, falando e rindo muito como sempre. Tentei me enturmar, entrar na rodinha, mas elas me ignoravam e meio que fechavam a rodinha quando eu ia me incluir. Uma vez ou outra eu tentava conversar com elas, mas era ignorada da mesma maneira. Cutuquei a Raíssa discretamente e pedi para ela me apresentar às meninas. E tudo que ela me respondeu foi "ah, se enturma aí, eu não preciso ficar te apresentando, né?".
Nessa mesma hora fiquei com uma p*ta raiva. Desisti de me enturmar com garotas que estavam "se divertindo demais para conhecer gente nova" e fui procurar meus outros amigos.
Então, do nada, a minha amiga mais fofoqueira, a Fabiana, veio falar comigo.
- Está sozinha?
- Hã? Não, não, eu só estou esperando a Raíssa vir falar comigo, agora ela está lá falando alguma coisa com as amigas dela.
- As Sônias?
- "Sônias"?
- Sônia Astrid, a loirinha, Sônia Pinheiro, a de óculos, Sônia Coutinho, a baixinha, Sônia Marques, a morena, e Sônia Azul, a de cabelo cacheado.
Então todas elas se chamavam Sônia?? Qual a probabilidade disso? Qual a probabilidade de 5 Sônias, na mesma escola e mesma turma, serem todas amigas de infância entre si, e logo amigas de infância da minha Raíssa? Ela nem tinha amigas de infância quando eu a conheci, eu era melhor amiga dela muito antes dela ter essas tais amigas de infância. Pensei comigo mesma: "deve ser só hoje, o primeiro dia, que ela está animada por revê-las. Amanhã, tudo vai voltar ao normal, ela vai voltar a falar comigo, quem sabe até me apresentar a alguma Sônia.
- E desde quando elas se conhecem?
- Desde o jardim de infância, eu acho. Esse ano, todas elas resolveram mudar para a mesma escola.
Era uma armação de Sônias para tentar tirar a minha melhor amiga de mim!!

O sinal tocou. Aula vai, aula vem, e como eu já esperava, voltei para casa sem a Raíssa. Almocei, fiz meu dever de casa e tudo mais, e à noite fui ligar para a Raíssa. Por um milagre, ela atendeu.
- Oi, Son!! - disse ela, toda felizinha.
"Son"?? Agora ela inventou apelidinhos fofinhos para as amigas dela? Ela nunca inventou um mísero apelido para mim, e está inventando para essas sirigaitas? Além disso, porque ela atendeu achando que era a Son? Quantas Sons devem ter ligado para ela só hoje para achar que eu era mais outra Son???
- Oi, Raíssa. Não é a Sônia, é a Ester.
- Ah, oi. - ela perdeu 80% da simpatia de antes ao falar essa frase.
- Raíssa, só queria saber se tá tudo bem. Hoje na aula você nem falou comigo direito, ficou até me ignorando. E nas férias você também não ligou para mim nem nada. Eu fiz alguma coisa que te magoou? Pode ser sincera, eu vou entender.
- Ih, tá doida, mulher? Eu falei com você, sim. Eu só estava conversando mais com as minhas outras amigas, porque elas tinham muita coisa para contar e relembrar. Mas relaxa, tá tudo bem. - o que ela dizia não combinava com o tom de voz dela, que parecia dizer "desliga logo esse telefone e para de me encher o saco, eu quero falar com a Son".
- Jura mesmo?
- Sim, juro. Olha, tenho que desligar, vou tomar banho. Tchau!
Depois que ela praticamente desligou na minha cara, tentei ligar pra ela de novo. Adivinha: ocupado. Quer apostar quanto que era a Sônia? Que Sônia? Não importa, era uma Sônia.

Ela disse que era só aquele primeiro dia que ela não falou muito comigo. Mas passou terça, quarta, quinta, passou a semana inteira e ela continuou grudadinha nas Sons, me ignorando. Nem me ligar ela me ligou. Também não arrisquei. Será que se eu mudasse meu nome para Sônia, ela me ligaria? Ela voltaria a falar comigo? Eu não perderia a minha melhor amiga?
Foi aí que eu tive uma ideia. Descobri por acaso o telefone de uma dessas Sônias, ao abrir um bilhetinho jogado no lixo. Era o telefone da Sônia Azul. E como eu tinha uma voz bem parecida com a voz da Raíssa, me esforcei ao máximo para tentar imitar a voz dela e fingi que era ela.
Por incrível que pareça, a tal da Sônia Azul caiu direitinho. Falou umas bobagens no início, coisas de Sônia, mas logo perguntou por que eu, quer dizer, a Raíssa, estava tão quieta. Disse que estava pensativa, porque esses dias a Ester (eu) ligou, perguntando se tinha alguma coisa errada, e eu (Raíssa) fiquei com medo de falar "a verdade" (que eu nem sei o que é, aliás), e perguntei se eu devia logo contar a verdade pra ela.
A Sônia não entendeu. Talvez não houvesse verdade nenhuma, afinal. Até que a Sônia falou a frase fatal:
- Peraí, amiga. Quem é Ester?
A Raíssa nunca falou para as amigas dela de mim?
- É aquela menina que enche o nosso saco de vez em quando, sabe, nossa colega, de cabelo castanho, liso e de aparelho. Ela era minha melhor amiga desde a 5a série, não te contei dela, não?
- Ahh, acho que eu sei quem é. Mas você nunca falou nada dela, não. Ela parece meio chata, né? Mas enfim, qual é essa tal "verdade"?
Desliguei na cara dessa coitada da Sônia Azul. Eu não apenas era chata, eu era simplesmente insignificante na vida da Raíssa!! Por que ela vinha fazendo isso comigo? Será que eu era só uma substituta das Sônias?
Não importava mais. Em vez de ligar para a Raíssa de novo, liguei para a Fabiana e perguntei se ela queria sair naquele sábado. Ela aceitou animada. Depois, vi o telefone da Raíssa na minha agenda. Risquei seu nome e acima escrevi: "Sônia".

25 de setembro de 2012

Não existe um mundo lá fora

5 comentários:
Na época da minha mãe, ela dizia, existia um mundo lá fora de casa. A gente via todos os dias cenários novos, conhecíamos pessoas diferentes, atravessávamos ruas, lidávamos com realidades diferentes. Nossa casa era apenas um lugar para chegar no fim do dia, quando precisávamos dormir com segurança, e para guardar nossas coisas, como os homens da pré-história com suas cavernas.
Nunca soube se deveria acreditar na minha mãe. Hoje parece impossível de acreditar que nosso amigos realmente se arriscariam a deixar a segurança de suas casas para nos visitar, que íamos no mercado e arrasávamos nossas colunas com sacolas pesadas, que saímos de casa só para fazer exercícios e depois voltávamos para tomar banho. Não acredito que passávamos a manhã inteira fora de casa só para alguém nos ensinar coisas novas e acordar naquela hora absurda da manhã, e que os adultos passavam o dia inteiro fora, sem olhar os filhos, para ganhar dinheiro. Não acredito que tínhamos que sair todos os dias para comprar qualquer coisa que seja. E não acredito que podíamos ver o rosto de nossos melhores amigos sem ser através de uma webcam.

Lá fora só vejo um vasto céu, aglomerações de prédios e ruas cheias de máquinas. Não há uma pessoa, apenas caminhões de entrega que se auto-pilotam por GPS. As únicas vezes em que estive lá fora foram para recolher as entregas dos caminhões.

Uma vez, quando eu tinha 7 anos, pedi insistentemente para o meu pai me levar para passear na rua. Ele dizia que era perigoso, que não tinha sentido, que tudo que eu precisava estava em casa. Mas, de tantas vezes pedir, ele me levou para um passeio no meu pequeno quarteirão.
A visão não era muito diferente daquela da vista da minha janela - aglomerações de prédios em quarteirões, céu, máquinas. Uma árvore em cada esquina. Mas então eu vi o horizonte. Era de uma cor amarronzada, diferente daquela do céu. Eu queria ir para lá e pedi para o meu pai.
- De jeito nenhum! Não pode.
Mal sabia eu que aquele era o poço dos suicídios. Na verdade, aprendi depois, era o esgoto: sempre que a gente colocava alguma coisa no ralo do banheiro ou da cozinha, ia tudo pra lá. Por isso o cheiro ruim e a cor amarronzada meio nojenta.
Quer dizer, isso foi o que ele disse. Minha amiga, um pouco mais velha que eu, disse que não era só isso. Que aquele esgoto escondia todos os defeitos da humanidade. E ninguém sabe.
Sempre que alguém fica muito triste com a vida, principalmente os adultos, que sentem falta de sair de casa, sabe-se lá o porquê, vão em direção ao esgoto. Alguns se matam ali mesmo, porque não querem morrer dentro de casa. Ela disse que, se um dia eu for pra lá, posso até encontrar algum cadáver, pois os suicídios são frequentes.

Um dia eu fui lá, fugindo enquanto meus pais dormiam, e não achei nenhum cadáver. Só encontrei um bilhete, escrito "fuja, isso tudo é um grande perigo para sua saúde mental".

Com medo, achei que era perigoso e voltei para casa. Acho que não quero amis sair.

4 de setembro de 2012

Viagem

8 comentários:
"E então eu finalmente descobri. Sei que parece ridículo, improvável, impossível, inexplicável, ilógico, coisa de filme. Mas eu descobri como voltar no tempo.



A operação em si parece simples. Peguemos objetos, fotos, aromas típicos da mesma época e de uma mesma região. Por exemplo, me visto agora com uma roupa que já foi da minha bisavó - um longo vestido de renda, com chapéu e luvas - e vejo-me cercada de móveis, odores, sons de uma época que não é a de hoje. Até a paisagem lá fora não parece atual. Mas, acalme-se, ainda não é o bastante! Primeiramente certifique-se de que não há nada que o fará lembrar da época atual. E isso inclui sua existência, afinal, nessa época você já não vivia!

Então, como você fará para esquecer de quem é?
Invente uma identidade falsa. Invente seu nome, com uma data de nascimento próxima a sua, e inclua o nome de sua família inteira, onde nasceu, cresceu e vive, no que trabalha, onde estuda ou estudou, quem você conhece... mas isso é muito fácil. Difícil mesmo é fazer. Tente se esquecer, por um segundo que seja, da pessoa que você é. Conseguiu?

Não, me desculpe. Não é possível que você tenha conseguido.
Não, não, não venha com essa desculpa de que conseguiu! Você sabe muito bem que pode até não ter pensado em quem você era, mas definitivamente não se esqueceu. Assim como você pode, por exemplo, não pensar o tempo todo na sua mãe, mas não se esquece nunca que tem uma mãe!
"E quanto às pessoas com amnésia? Porque elas não viajam no tempo?", você perguntaria. A resposta é simples: quando elas se esqueceram de quem eram, estavam num contexto atual. Provavelmente, se perdessem a memória em um lugar completamente decorado e contextuado em outra época, e alguém as dissesse que estava em um ano anterior, ela estaria viajando no tempo até o momento em que se depararem com qualquer coisa mais atual do que aquele espaço.

Veja só, o tempo é uma noção humana. O universo vai além de muito mais do que nossa mera percepção de passagem dos fatos - a qual chamamos de "tempo" - e nada mais tem a ver com desenvolvimento de partículas, fótons e todo um universo físico-químico. O tempo é humano. Portanto, agora é, ao mesmo tempo, ontem à noite, 1960, 1846, 1500, século 3, Antiguidade... o que precisamos encontrar não é o tempo que se passou, mas a essência dos fatos ocorridos. O que somos agora é uma consequência de tudo que ocorreu, portanto, há, sim, um pouco de antigo em cada coisa, cada decorrência de nossa vida - se quisermos, basta procurar.

Há uma sensibilidade especial para essa procura. Nem todos conseguem captar a passagem de tempo. Em teorias mais religiosas, existem os médiuns - que eu nada mais chamaria do que pessoas hipersensíveis. Os médiuns possuem o dom de sentir tais essências passadas, o que é explicado pelo teorema espiritista, mas o que impede que a "mensagem dos mortos" passada para os vivos não seja a essência, o odor, o som de um pensamento, fala ou ação que uma pessoa deixou naquele lugar, na pessoa próxima?

O mundo é feito de energias, e, se quiser viajar no tempo, basta treinar, todos os dias, sua sensibilidade, através dos sentidos que possui - usando, portanto, objetos, cenas, sons, cheiros, texturas - e explorar sua sinestesia para criar a imagem do passado. Não é possível alterar os fatos, porém, viajando no tempo. Os fatos haverão ocorrido independentemente dos costumes serem aqueles ou não, e não se pode revertê-los, apenas entendê-los."

Carta Anônima

31 de julho de 2012

Adote.

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Na parte mais rica da cidade, havia uma moça que desejava ter um filho. Do outro lado da cidade, na parte mais pobre, havia uma criança que desejava ter uma mãe.
Essa moça tinha longos cabelos castanhos e ondulados e olhos azuis. A criança tinha a pele negra e os cabelos curtos e crespos.
Toda noite, antes de dormir, a moça chorava porque não conseguia engravidar. Toda noite, antes de dormir, a criança chorava porque não encontrava uma mãe.

Um dia, o marido da moça conversou com ela sobre o futuro filho. Disse que, na idade dela, era difícil e arriscado engravidar. E os dois começaram a pensar na possibilidade de adotar uma criança.
Depois de alguns meses, o casal foi ao outro lado da cidade, na parte mais pobre. Entraram em contato dizendo que procuravam por uma criança meiga, sociável, brincalhona, carinhosa... e, nessa mesma hora, a criança, que era exatamente dessa maneira, acordava no mesmo orfanato, sonhando com pais meigos, sociáveis, brincalhões e carinhosos, exatamente como eles eram.

A criança então foi apresentada. Os três tiveram uma ótima relação. Mas havia um detalhe: a criança tinha 7 anos de idade, não sabia ler e nem se comportar, pois nunca teve pais para ensiná-la. O casal então disse que pensaria um pouco mais. O marido conversou com a moça sobre as dificuldades: o atraso no entendimento escolar, o possível mau comportamento, a dificuldade de reeducá-la para torná-la bem comportada... A família da moça concordava: é melhor tomar conta de uma criança desde o início da vida dela, além de que uma herança dos genes é sempre o orgulho da família, que adoção era uma coisa complicada tanto para os pais quanto para a criança aceitar... a moça continuava pensando, pensando, e a criança continuava esperando, esperando.
E então um dia a moça engravidou. Ao contrário do que vinha acontecendo antes, ela não sofreu de abortos naturais, e o bebê foi crescendo saudavelmente, até o dia em que ele nasceu e virou a alegria do casal e de toda a família.

A criança, porém continuou no orfanato, permanecendo com a memória de seus pais verdadeiros a abandonando por não terem condições de criá-la, permanecendo sem o amor e os cuidados de uma família, apenas esperando para que o casal voltasse e a adotasse.
E ela continuou esperando, esperando, e esperando... até hoje.

Porque uma vida carente que já existe vale mais a pena do que uma vida que pode vir a existir.

30 de julho de 2012

Eu queria ser você

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E então tinha na minha sala essa garota maravilhosa que se chamava Sabrina.
Enquanto eu só tirava notas na média, ela tirava 10 e 9 em quase tudo. Enquanto eu ia para a escola despenteada e com cara de sono, ela estava sempre com os cabelos lindos, lavados e a cara de quem sempre acorda com o pé direito. Enquanto nenhum garoto gostava de mim, todos os garotos a adoravam e a achavam linda. Enquanto eu era péssima em esportes, ela era ótima. Enquanto eu mantinha as minhas poucas amizades, ela tinha as amigas mais verdadeiras e divertidas do mundo e a cada dia fazia amigos novos. Enquanto eu era desastrada e tropeçava todo dia na escada da escola, ela andava pela escola como uma modelo. Enquanto eu falava baixo e cantava mal, ela tinha uma voz linda e cantava como um passarinho.
Todos os professores a elogiavam, todos os colegas falavam como ela era legal com todo mundo, todos os garotos eram apaixonados por ela, e até a minha mãe me comparava a ela o tempo todo. Todos os dias, eu ia dormir torcendo para que eu acordasse milagrosamente no corpo dela, na casa dela, na vida dela, e ela na minha. Dessa maneira, meus pais nunca mais iam reclamar da filha. E eu nunca mais ia reclamar da minha vida.

Um dia fizemos um trabalho de escola juntas. Ela, como sempre, tinha ideias geniais e criativas para o trabalho, e eu apenas concordava combinava quando iria ligar para ela e que dia nos encontraríamos para fazer a maquete.
Liguei então para ela... e na sua voz reconheci um tom de choro.
- Alô?
- Oi, Sabrina, sou eu, tudo bem?
- *snif* Tudo, e com você?
- Estou bem... mas tem certeza que você está bem? Parece que você está chorando.
- Não é nada, eu só estou resfriada.
- Bem, se você diz... que horas nos encontramos amanhã para comprarmos o material da maquete na papelaria?
- Ah, pode ser depois do almoço, umas 2 horas da tarde.
- Combinado, então. Beijos, tchau!
Fiquei o resto do dia pensando se o que ela falou era verdade. E no dia seguinte ela parecia bem melhor.
- Ué, e o resfriado?
- Melhorei.
Compramos o material e combinamos de nos reunir na minha casa. Descobri que era verdade: ela realmente era uma pessoa muito legal e fazia jus à sua fama, o que só me fazia admirá-la mais. Uma hora sua mãe ligou, e logo em seguida ela me pediu para ir no banheiro, disse que não estava se sentindo muito bem. De 5 em 5 minutos eu ouvia a pia abrir e fechar. Eu bati na porta:
- Está tudo bem? - mas ela não respondeu.
Abri então a porta. Ela estava sentada no chão, atrás da porta, chorando, se escondendo o máximo possível de mim.
Ela não queria falar, mas eu insisti. E ela então me contou tudo. Contou que a mãe havia lhe dado uma bronca por não ter voltado pra casa mais cedo para cuidar dos irmãos menores. Ficou acusando de que ela estava usando a desculpa de fazer o trabalho pra ficar na casa de um namorado, que por sinal ela nem tinha. Disse que a mãe passava o tempo todo a xingando, deixando de castigo, fazendo ela cuidar da casa e dos irmãos, e de como era difícil conciliar todas as tarefas domésticas com os deveres da escola. Por fim, contou uma história triste de como o pai dela morreu em um acidente de carro há 5 anos atrás, antes dela ter entrado na nossa escola, e como desde então a vida tem sido difícil para ela.
E então eu entendi que para cada bem existe um mal e vice-versa. Deixei de pensar em como ela era sortuda e passei a valorizar a sorte de ter uma família que me amasse tanto e que cuidasse bastante de mim.
E desde esse dia eu e Sabrina nos tornamos ótimas amigas. E aprendemos a valorizar as diferentes grandes sortes que tivemos.

21 de julho de 2012

Um (quase) amor de verão

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E então éramos eu, Bianca e Jorge. Ele não sabia, mas eu passei o verão inteiro pensando como seria ficar com ele. A Bianca também. Eu não sabia se o Jorge gostava de mim ou dela, se é que ele gostava de alguma de nós.

Um trio inseparável: acordávamos na mesma hora, eu ia para a casa da Bianca colocar o biquíni e o protetor solar, encontrávamos o Jorge na casa de praia dele e apostávamos corrida para a praia de depois para o mar. Uma vez, eu caí e ralei um pouquinho o joelho. Jorge me levou de colo até a praia e me deixou sentada na cadeira. Bianca morreu de ciúmes. Depois disso, eu não podia entrar no mar machucada, então ele foi lá sozinho com a Bianca, e eu tive que observar os dois brincando. Morri de ciúmes.
À tarde, tomávamos banho e almoçávamos, cada um em sua casa, e nos encontrávamos na frente da minha casa para irmos à sorveteria. Bianca estava sempre linda, de cabelo molhado, escorrido e preso e uma roupa de verão básica e arrumadinha. Eu tentava me arrumar tanto quanto ela, mas meu cabelo e minhas roupas não colaboravam. Na sorveteria, eu sempre pedia um de chocolate, Bianca sempre pedia de creme e Jorge sempre pedia um de menta. Quando pagávamos, eu aproveitava para comprar chicletes Bubballoo. Bianca comprava chicletes da Trident. E o Jorge normalmente acabava bancando uma de nós. Normalmente, depois disso, brincávamos na rede, jogávamos vôlei na cancha e tomávamos outro banho.
À noite, o pai de Jorge sempre fazia um churrasco, e todos os conhecidos se juntavam para comer e conversar. Quando dava quase meia noite, ainda na casa de Jorge, assistíamos um filme de terror. A mãe dele fazia pipoca e brigadeiro pra gente. No quarto dele havia uma cama e uma poltrona. Às vezes Bianca sentava na cama com ele e eu na poltrona, e eu morria de ciúmes. Às vezes era a Bianca que ficava na poltrona, e ela que morria de ciúmes. E às vezes era o Jorge mesmo que ficava na poltrona, então ninguém tinha ciúmes.

Um belo dia resolvemos ir à praia ver o pôr do sol. Dos três, apenas eu havia tomado banho. Molhamos nossos pés no mar, e então Jorge teve a ideia de deitar na areia para ver melhor a coloração do céu. Bianca se deitou também, mas eu não quis me deitar para não sujar meu cabelo recém-lavado. Apenas me sentei ao lado do Jorge.
Eis então que ele diz ter visto a primeira estrela, e nem eu nem Bianca conseguimos ver. Como eu estava sentada, desisti. Mas a Bianca aproximou a cabeça do lugar onde a dele estava, e ele então apontou, e eu vi que ele discretamente passou a mão por cima da mão dela.


Eu então fechei os olhos para não chorar, até que ouvi um barulho diferente do barulho das ondas. Abri os olhos e vi os dois se beijando à luz do luar, de olhos fechados. A cena era tão bonita que eu nem quis atrapalhar. Silenciosamente, voltei para minha casa, lavei os pés e me tranquei no quarto chorando. Alguém não apareceu no churrasco naquela noite.

No dia seguinte nos despedimos de Jorge, pois ele ia embora. Eu tinha um fiozinho de esperança de que ele se arrependeria do que fez e me desse um beijo de despedida. Mas ele não o fez. Só disse que sentiria minha falta. Até parece.
Bianca então perguntou porque eu não tinha aparecido no churrasco de ontem. Eu disse que era indigestão. E então fomos à sorveteria, onde eu pedi um sorvete de chocolate. Mas, surpreendentemente - ou não - ela pediu um de menta e comeu suspirando.


(História fictícia em homenagem ao melhor lugar no mundo para se passar o verão - Barra do Camacho, SC)

20 de julho de 2012

Reencontros

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O fim de uma amizade. Existe coisa mais triste?

E não acabou por uma briga. Se fosse assim seria melhor, porque com um pedido de desculpas a amizade, dependendo da briga, voltaria. E se a briga fosse muito feia, eu nem teria interesse em reconquistar essa amizade, pois nós estaríamos nos detestando até o fim dos tempos.
Mas não acabou por uma briga. Acabou porque acabou. Acabou porque ela nunca mais ligou. acabou porque, quando eu ligava para ela, eram as desculpas de sempre: "preciso estudar", "já combinei de sair com outra amiga", "tenho um jantar em família, depois eu te ligo pra gente combinar outra coisa". Mas ela nunca ligava de volta. E quando eu ligava, era sempre outra desculpa, que naquelas alturas eu nem queria mais saber se era verdadeira ou não.

Acabou porque, nas poucas vezes em que a gente se via, ela começava a me tratar diferente. Quando ela ainda era minha amiga, qualquer telefonema era motivo de contas muito altas de telefone, qualquer piada era motivo para morrer de rir, qualquer conversa que a gente começava não acabava nunca mais, qualquer plano era executado de maneira muito divertida, e qualquer jogo ou brinquedo era motivo de muitas horas de diversão. Agora, ela sempre atende o telefone desinteressada quando reconhece a minha voz. Ela suspira ou boceja entediada sempre que eu conto uma piada. Quando eu puxo qualquer assunto, ela responde desinteressada procurando alguma coisa para fazer. Qualquer plano que eu faça é considerado "uma bobagem", não propõe filmes para a gente ver, não fala nada da própria vida e só reclama de não ter nada pra fazer quando sai comigo. Quando foi que ela mudou tanto? Até um mês atrás, ela ainda era a minha melhor amiga, idêntica ao que eu me lembrava. E agora nem como uma amiga ela me considera mais.


Passaram- se três anos. Ela engordou e cortou o cabelo. Eu emagreci e pintei o meu. Ela repetiu de ano e já teve uns quatro namorados. Eu mudei de escola e continuei com um só. Ela continua sendo ótima em ciências e horrível em matemática. Eu passei a adorar matemática e detestar ciências. Ela arranjou novos amigos e uma nova melhor amiga, e eu também. Nunca mais nos falamos, nunca mais nos ligamos, nem sequer nos falamos no MSN. Nunca mais. Todo dia eu passo em frente à antiga casa dela e ao meu antigo colégio. Não consigo encontrar mais que boas lembranças.

E então um belo dia eu a encontro voltando do colégio. Depois de três anos, quase não nos reconhecemos. Na verdade, sou eu que a reconheço. Ela está rindo ao lado do namorado e de duas amigas, e eu estou voltando para casa a pé e sozinha. Fico pensando se eu a cumprimento e concluo que vale a pena arriscar. Ela demora um pouco para perceber quem eu sou.
Quando ela finalmente me reconhece, abre a boca e me dá um abraço. "Quanto tempo! Como você mudou!". Digo o mesmo. Trocamos algumas novidades. Ela me apresenta às novas velhas amigas e ao namorado, e eu falo do meu novo velho colégio. Ela continua desinteressada pela minha vida, desde que nossa amizade acabou. 

Mas eu continuo interessada. Ela sempre vai ser minha amiga, mesmo que esteja chata agora, mesmo que não nos falemos nunca mais. Porque sempre que eu me lembrar dela, vou preferir não lembrar dos momentos desagradáveis. Vou apenas lembrar dos filmes que vimos juntas e do quão era divertido e agradável estar na companhia dela. E de como é tão bom e tão raro ter uma melhor amiga como eu tive.

16 de julho de 2012

Sobre o amor

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Conhecendo
Me apresento. Não, não me apresento: ele é que deve se apresentar a mim se ele se interessar. Ele não vem. Ele não se interessa por mim. Sim, ele se interessa: ele olhou para mim. Não, ele não olhou para mim, ele apenas olhou para a minha direção. Olho de volta. não, não olho. Acho que ele nem olhou para mim mesmo. Não me apresento. Espera. Espera ele ir até a minha direção. Ele não vem. Ele vem. Não, sou eu que estou indo. Paro de ir. Ele vem? Não sei; continuo indo. Paro. Ele vem. Ele se apresenta. Eu me apresento. Puxo conversa? Não, só se ele puxar primeiro. Ele puxa. Eu continuo. Permaneço continuando? Não, deixa ele falar. Ele fala. Ele não fala mais. Volto a falar. Paro e deixo ele falar. Ele fala e faz o mesmo. Tenho que ir, vou ou não vou? Não vou, quero ficar aqui. Vou, já está na hora. me despeço? Despeço, senão é falta de educação. Deixo telefone? Não, não deixo, só se ele pedir. Ele não pede. Não deixo telefone. Deixo, porque talvez ele tenha se esquecido de pedir. Peço o dele? Nem dá tempo, ele me dá o telefone também.

Primeiro encontro
Ligo ou não ligo? Não ligo, espero ele ligar. Ligo, senão ele não liga. Não ligo, senão ele vai me achar estranha. Ligo de uma vez. Ocupado. Quem será? Desligo. O telefone toca. Ele é quem liga. Quem era antes? Um amigo.   Falo que quero ver ele de novo? Não, não falo. Mas ele fala. Digo que quero também. Combinamos. É o dia, chego atrasada ou não? Chego, pra deixar ele preocupado. Não chego, para ele não ficar esperando e desistir de mim. Chego, porque aí eu sei se ele tem paciência pra me esperar ou não. Saio. Não chego. Ele não está lá. Ele vem ou não vem? Vem, sim. Não, não vem. Vem, não vem. Ele vem. Finjo que não vi? Não, não finjo. Finjo. Ele então me cumprimenta. Puxo assunto? Inevitável, puxo. O assunto não para. Chego mais perto dele? Chego... Não, não chego. Mas jogo charme para que ele se aproxime. Será que ele se aproxima? Não, não se aproxima. Ele dá uma desculpa para que eu me aproxime. Me aproximo ou não? Aproximo. Tá na hora. Beijo de despedida? Espera ele tomar a iniciativa. Beijo no rosto ou...

Encontros seguintes
Digo ou não digo? Dou ou não dou presente? Conto ou não conto para os amigos? Do que eu devo chamá-lo? Onde mais a gente poderia ir, o que mais poderíamos fazer? De que roupa será que ele gosta mais em mim? Prendo ou não o cabelo? Apresento ou não para os meus pais? Vou ou não vou para a casa dele? Convido ou não convido? Apresento ou não para os amigos?

Primeiras brigas
Como é que ele pôde fazer isso? Por que será que eu o deixei tão irritado? Xingo ou não xingo? Deixo ele de castigo? Ligo? Não ligo? Ligo. Perdôo. Está tudo bem. Como é que ele esqueceu?? Xingo. Perdôo. Qual o problema de sair de casa assim? Discuto. Espero ele perdoar? Não, vou sozinha para casa. Ele liga. Eu perdôo. Por que ele olha para ela e não para mim? Xingo, discuto, não perdôo, sem nenhuma dúvida. Ele me traz rosas. Perdôo. Por que ele não quer que eu saia com o meu melhor amigo? Discuto, ele xinga, não me leva pra casa. Choro. No dia seguinte ligo para ele chorando. Ele perdoa. Eu vou para uma festa sem avisar, ele sai com os amigos sem me convidar. Não sei bem se estamos perdoados.

O fim
Dou ou não dou o primeiro passo? Não dou. Não nos falamos, não nos ligamos. Ele liga. Quer me ver. Vejo ou não vejo? Não vejo porque já sei o que ele vai falar. Terça eu te vejo. É terça. E agora, vou ou não vou? Conto ou não conto? Estou ou não estou preparada? O que será que ele vai dizer? Está a fim de outra? Homem não presta mesmo, são todos iguais. Todos menos o Fulaninho, que é quem eu estive de olho ontem mesmo... mas será que eu ligo ou não ligo?