17 de agosto de 2012

Webnovela: A Chave

Odeio minha escola. É uma escola religiosa localizada no bairro vizinho, porém a distância é curta o suficiente para percorrer o trajeto caminhando. É uma das escolas mais baratas da cidade, na verdade, a mais barata das escolas particulares. Há uma educação religiosa demasiadamente forte, o que é ruim para uma garota laica, e cada peça tem o efeito de uma catedral, minimizando os alunos e fazendo-os se sentir tão pequenos e inferiores diante das autoridades celestiais. As professoras são umas mulheres caretas e enormes de gordas, todas se parecendo umas com as outras no jeito de falar, pensar e no formato do corpo. Se uma delas nota que você não está rezando “com fé”, te dão uma bronca na frente da sala inteira, que se inunda de cochichos e risadinhas. Se eu disser que sou laica, perco a bolsa. Cada vez que chegamos atrasadas, temos que rezar uns 5 pais-nosso e não sei quantas ave-marias, além de ser monitorado o dia inteiro por uma freira mal-humoradíssima chamada Dalva Lourdes, que fica nos dando sermão para realizarmos boas ações o dia inteiro, como pedir perdão e perdoar, fazer favores às outras pessoas, ajudar o pessoal da limpeza do colégio, etc. Uma total perda de dedicação a um lugar do qual eu não gosto nada.
Hoje, como cheguei atrasada o dobro do tempo permitido, tive que fazer tudo em dobro. Dalva Lourdes me espiava com seus olhos grandes por trás de seus oculinhos como se eu fosse o único suspeito do maior crime da história. Sou obrigada a ajudar uma colega com os deveres da qual odeio, pois vive me humilhando, e limpar a caca que as encrenqueiras da 7B fizeram com o giz.
Na hora do intervalo da merenda, percebo pela primeira vez que estou sozinha. Todas minhas colegas têm uma amiguinha para quem contar seus segredos, todas elas têm seus namoradinhos fora da escola, todas estão rindo e fofocando enquanto a cozinheira Benedita nos implora para não falar de boca cheia, Jesus não gosta. Por que devemos ser devotas a Jesus se Jesus não é justo conosco? As duas cadeiras, à minha esquerda e à minha direita, estão vazias. Eu não tenho amigos. Será que já tive?

Voltando para casa, não encontro meu pai em lugar algum e, enquanto o espero fazendo meu dever de casa, recebo um telefonema.
- Fernanda, sua avó pediu para que você a encontrasse em frente à casa dela o mais rápido possível. É urgente.

 Anabel experenciava mais uma vez o medo de estar perto da temida, e sabia que agora já não havia escapatória, estava destinada a desmoronar-se em seus braços assim que o baque fosse sentido, não podia mais fugir como aquela criança solitária com medo do fogo. Porém, ao invés de trancar-se num quarto de menina, estava trancada em algo extremamente mais melancólico do que uma infância longa e misteriosa, e era um quarto de hospital. As fantasias infantis tornavam-se momentos de grande repugnância, quando a enfermeira vinha dar-lhe o amargo remédio e não lhe dava aquelas palavras confortáveis, as mesmas que Anabel dirigia às suas carentes e enfermas bonecas. Seus companheiros de aventuras tornaram-se colegas de quarto doentes, enjoados e semimortos. Sua eterna brincadeira consistia agora, em vez de comidinha, comida de hospital, em vez de carinho, visitas sem algum sentido, em vez de inocentes vestidos, uma camisola de hospital cheirando a vômito. Trocara seu quartinho escuro - com o famoso cheiro de mofo fundido com o das margaridas plantadas na janela - àquela sala cheirando a medicina, tudo verde e esterilizado como se qualquer toque de uma pura criança pudesse ser da mais repugnante nojeira, desmerecendo a tão aparente higiene da ingênua tia Anabel.

Amanheci com a mão fria e desfalecida da evitada sobre a minha. Nunca tive vocação para paramédica, mas por algum motivo sabia que Anabel estava morta, e não era pela sua frieza nem por seu pulso, mas sim pelo rosto: pela primeira vez desde aquela madrugada, seu rosto estava sereno e rendido, como se a morte houvesse passado por ali aquela noite e, antes mesmo de acordá-la, a menina crescida já estivesse com sua mão estendida, paciente e contenta pela busca tão demorada. Chamei a pobre enfermeira, que tantas vezes discutiu com Anabel que parecia até feliz com a possibilidade da mesma estar, como ela disse?, “defuntada”. Sem mais delongas, fui embora. Vovó acordou logo depois, e, se não me engano, deve ter lhe ocorrido em mente o mesmo que me ocorreu. Dei um beijo na bochecha cansada da vovó, que, imóvel e sem lágrimas, tapava com o lençol a moça tão bonita. Veja só, morreu sem nem chegar aos 30 anos, em um estado mensal absurdo, e nem assim perdeu uma só característica de sua beleza, tanto interna quanto a de seu corpo perecido. É claro, dezenove anos de sua vida trancados em quartos escuros afetavam a beleza que poderia ter recebido do calor solar. “Ela seria tão bonita quanto você se não fosse lelé”, disse vovó, mas não me convenci muito de que meu rosto comum se comparava àquela beleza inexplicável. Não puxou a ninguém da família!
Ao chegar à sala de espera, começo a derramar minha primeira lágrima, e nem sabia direito o porquê. Mal conhecia minha tia. Depois do incidente, só vovó a visitava, mamãe não queria a ver nem pintada de ouro. Papai mandava flores, mas nunca a visitava, principalmente porque mamãe não deixava. Depois do divórcio, chegou a visitá-la umas duas ou três vezes. Ao longe, vejo mamãe sentada impaciente, e me dá um beliscão no braço, me puxando para a parada de ônibus.

- Maluca. Idiota. Acho bom que não more comigo.

Repentinamente, começo a chorar como uma louca, não por causa da reação, já esperada, de minha mãe, mas por causa de Anabel, da morte serena de Anabel... uma morte, realmente, linda...

- Tá chorando por que, imbecil? Foi ela que se matou. Você sabe, você viu. – Levo um tapa no rosto, não muito forte, e me levanto.
- Finge que eu não estou. – e desço, enfim, no meu ponto, enquanto mamãe me olha da janela com desprezo.

 Papai, ao ouvir a campainha, me atende calorosamente, com um abraço apertado.
- Pai, ela...
- Eu sei, eu sei, eu sei... – e me solta.
- Como você sabe, pai? Sou a primeira a te contar.
- E por que outro motivo você estaria chorando?
- Sei lá. Por pena, não sei.
- Eu nem pude mandar flores para ela.
- E que raios ela poderia fazer com as flores? Ela está morta.
- Então temos que comprar flores para o funeral. Margaridas.

 Não vou ao funeral de Anabel. As únicas pessoas que comparecem são papai e vovó, nem sequer mamãe foi comigo. Na verdade, fiquei com minha mãe na casa da vovó. Foi, é claro, ideia da minha mãe que eu não fosse. Ouvi-a comentando com a minha avó de que era uma boa ideia eu não ir ao funeral, pois era algo triste e iria piorar minhas condições emocionais, e ela se ofereceu para me cuidar. Uma ova. Ela queria uma desculpa para não ir ao funeral e encontrar seu mais novo namorado, Cláudio.
 Ao mesmo tempo, me arrependo e não me arrependo de ir a tal funeral. Arrependo-me de não ter ido por que devo um grande respeito à Anabel, aquela que não merece respeito, por ter se suicidado. E não me arrependo de ter ido porque achei a chave. A chave do quarto no fim do corredor, à frente do banheiro, na casa 23 da Rua Quatro de Agosto.
Desde que Anabel teve seu “semi-suicídio”, desde que ficou paraplégica e foi morar no hospital, o seu quarto de menina, sua jaula, foi para sempre trancafiado. Quando eu era pequena, sempre que perguntava que porta era aquela no fim do corredor, a resposta era “nada, nada, é só o depósito”. Então, por que eu nunca podia entrar no depósito? Quando fui ficando mais crescidinha e mais esperta, vovó foi me contando aos poucos que aquele era o antigo quarto de Anabel, minha tia louca, e que tinha boas razões para ser trancado à sete chaves, quer dizer, a uma chave muito bem escondida, a qual nem mesmo meu avô conseguiu achar. 

Agoniada com a morte de tia Anabel, fui rever o vídeo de seu semi-suicídio. Havia o visto somente uma vez, escondida de vovó e mamãe, e 3 segundos após o ocorrido, mamãe me viu e me deu uma surra. Então, aproveitando sua escapatória, fui dar uma melhor olhada no que aconteceu. Nunca soube ao certo, então prometi a mim mesma que analisaria todos os detalhes. Por que Anabel se matou? Era a festa de casamento dos meus pais. Uma data alegre, não é? Cerimônia, promessa de uma vida nova ao lado do eterno amor, e todas essas frescuras das quais eu tinha certeza de que minha mãe não cumpriria nem metade. Na ocasião eu já era nascida, tinha uns 5 anos, mas era a lua-de-mel dos meus pais, então fiquei na casa da minha amiguinha de creche. Engraçado, mas acho que esta é minha memória mais antiga: mal consigo lembrar de como era minha vida antes dos 5 anos, mais especificamente, antes da tragédia.
O vídeo é igual a todos os vídeos caseiros comuns de família feliz: sorrisos, um tio metido a engraçado, os avós orgulhosos, cada membro da família dando um depoimento. E, no fundo, Anabel admira tímida da varanda a paisagem que podia ser vista da cobertura. A primeira vez, em dez anos, que Anabel punha os pés para fora do seu quarto. Estranhamente, não lhe rendeu nenhum drama ou escândalo o vídeo inteiro. Jorge, o irmão de meu pai, vira a câmera para ela e fala o mais delicadamente jeito possível: “acene para o vídeo, Anabel”. Minha tia então dá um sorriso infantil e débil, como aquela criancinha que precisa fingir-se de feliz para tirar a foto do álbum da família. Exatamente o sorriso que havia me dado antes do dia de sua morte, antes de implorar por minha companhia. Assim que tio Jorge vai movendo a câmera, Anabel se vira e se joga da varanda, de um prédio de 12 andares. A lua-de-mel foi encerrada e a família inteira passa a noite no hospital.
Anabel não morrera, mas tivera severos danos físicos, ficara paraplégica e tornara-se ainda mais débil e infantil do que antes. Literalmente, retardada: lesões cerebrais fazem isso. Foi, sim, um semi-suicídio: Anabel claramente quis se matar. Mas por quê?
“Porque era louca, coitadinha”, dizia vovó. “Porque era uma retardada, ficou louca de propósito, achou a vida injusta e se jogou, só isso”, dizia mamãe. Foram tantas as histórias que já ouvi da Anabel, a titia de mais de 20 anos que preservara a mentalidade de uma menina de 10, que aos 20 brincava de boneca, falava com fadas, duendes e amigos imaginários, era professora, médica, mãe, sereia, fada, duende, anjo, bruxa, enfim, tudo o que pudesse ser. Quantas vezes, quando era pequena, tinha vontade de roubar suas bonecas e brinquedos! Ela ganhava mais brinquedos de Natal do que eu, ora essa!

Depois soube que essa infância travada, vulga loucura por parte de minha avó, vulgo (e muito mal classificado) autismo por parte de minha mãe, fora fruto de um trauma ocorrido na infância. A menina tinha pesadelos com a escola pegando fogo, acordava falando “eu vou morrer, eu vou morrer”, queria faltar todos os dias com medo de ser queimada, e um belo dia, fogo! A escola teve um incêndio, que começou na classe de Anabel, matando metade dos seus coleguinhas. Anabel havia faltado esse dia, estava com febre, pois, segundo vovó, “estava delirando muito”. Anabel passou a ficar em estado de choque, não queria mais ir para escola nenhuma, depois passou a não querer mais sair de casa, depois passou a não querer mais sair de seu quartinho mofado, escuro e obsessivamente limpo entre as brincadeirinhas de lavadeira de Anabel. A pequena passou a comer, brincar, crescer e estudar dentro de seu quarto, saindo só para tomar banho e escovar os dentes, e só na companhia de vovó. E quando voltava, quanta imaginação! Falava com seus platônicos amigos, virava tudo que queria ser, abandonara a realidade pelo faz-de-conta. Era apenas uma garota com medo de viver, só se fechando no seu faz-de-conta, onde ela controlava tudo e tudo dava certo... Quantas vezes, quantas vezes quis entrar naquele quarto! Quantas vezes quis achar aquela chave!

3 comentários:

  1. Que legal!
    Adoro quando fazem webnovela *-*

    Beijos, Juliana.
    http://bloggirlpop.blogspot.com.br/

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  2. Nossa, emocionante história. Vai ter continuação Mariah? É que não sei como funcionam web novelas XD mas queria muito saber como era o quarto.
    Blog Garotas Do Contra

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  3. calma, a mina do começo da história a do colegio de igreja é a anabel? muuito legal, continua sim!
    lamourmonage...

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