25 de agosto de 2013

Confusão



Faziam uns cinco meses que Ela havia morrido. Overdose. Ela tinha apenas 19 anos de idade.
Taís estava tendo a conversa que nunca queria ter com o seu namorado. Estavam juntos há uns 3 anos e se amavam muito. Pelo menos era o que ela achava.
Ele olhou nos olhos cheios de lágrimas dela e perguntou:
- Taís, me responde logo. Você já me traiu?
- Isso depende.
- Do quê?
- O que você considera traição?
- Primeiro, eu pensei que você tinha beijado um garoto nesse tempo, ou até que tinha um caso com ele, o que me faria terminar com você imediatamente. Mas então eu pensei, pelas evidências, que pode ser que vocês nunca tenham tido esse tipo de contato, você poderia estar apenas apaixonada por ele. No entanto, eu me sinto traído mesmo assim, pois achei que você só amava a mim... e dói tanto... Taís, por favor, me diga se é verdade.
- Se o quê é verdade?
- Você esteve apaixonada por outro garoto durante nosso namoro?
Ela pensou e disse, sinceramente:
- Não.

Você, leitor, deve estar pensando por que ela hesitou em falar a verdade. Bem, ela nunca havia beijado outro garoto. Nunca havia se apaixonado por outro garoto. Por outro garoto.

Ela tinha 17 anos quando se apaixonou pela segunda vez. Festa de formatura da irmã de uma amiga. Como estava sozinha, foi apresentada a outra garota. Ela. Ela e ela conversaram a festa inteira e se deram muito bem. Naturalmente, como a maioria dos adolescentes lá, estavam bêbadas. O que Ela não sabia era que aquele era o primeiro drinque que Taís já havia tomado na vida. E também não sabia que ela tinha um namorado ciumento e preocupado, desesperado porque sua amada não atendia o celular em meio à barulheira. Taís perguntou se Ela conhecia um lugar mais vazio e menos barulhento na casa de festas para poder atendê-lo. Sim, Ela conhecia. Levou-a lá. O namorado não atendeu, pois provavelmente foi tomar banho ou algo assim. Ela acariciou seus cabelos e perguntou com quem Taís estava tentando falar.
- Com... meu pai - respondeu, sem saber exatamente por que estava mentindo.
Ela disse para deixar para lá e ligar para ele depois, que Taís precisava se divertir ao invés de ficar igual a um bebê ligando para o pai. Ela era apenas um ano mais velha, mas uns dez anos mais experiente e dez vezes mais imatura. Fazia tudo sem pensar - ficava com todos os garotos, experimentava todas as drogas e bebidas, fazia tudo que lhe vinha à cabeça. Taís, pelo contrário, era extremamente certinha e reservada, com o comportamento de uma mocinha do século XIX. Ela ficou extremamente atraída pelo modo em que Ela conseguia ignorar as preocupações e não se importar com as consequências. Queria ser Ela. Queria agarrá-la. Mas tudo que conseguiu fazer foi deitar a cabeça em seu ombro.

Ela, já sem medo de nada e com muita vontade, passou a mão por sua cintura e acariciou o corpo de Taís. Taís disse que Ela era a garota mais bonita que ela já havia visto. E na mesma hora as duas se beijaram de maneira selvagem, com muita vontade. Taís não estava nem mais entendendo suas ações.
Ela ligou no dia seguinte. Queria sair, conversar mais. Pelo que Taís interpretou, aquela havia sido apenas uma "ficada amigável" para Ela. Como dar um selinho nas amigas de brincadeira, mas de maneira mais radical. Taís ficou feliz de poder ser amiga daquela garota. Quem sabe, até poderia aprender a deixar de ser tão meiga e certinha sempre.
No mesmo dia, ficaram de novo com ainda mais intensidade e paixão. E tais encontros continuaram.
Taís já não dava mais muita bola para o namorado. Cancelava planos para sair com Ela. Ele sempre achava bom que ela fizesse amigas novas e não se importou muito. Taís estava obcecada. Não queria beijar mais ninguém, não pensava em mais ninguém, queria ir para todas as festas em que Ela estivesse, sentia necessidade de tocá-la e beijá-la o tempo todo. Estranhamente considerava tudo isso "amigável", pois a possibilidade de que ela fosse lésbica nunca passou pela sua cabeça.

Um dia Taís descobriu que Ela estava ficando com muitos outros garotos e garotas, e inclusive com os dois juntos. Quis participar, mas não aguentou de tanto ciúme. Não conseguia mais imaginar Ela com outras pessoas sem ser com ela. E por isso parou de vê-la. Anotou tudo isso no seu diário, sem nunca dizer quem era a pessoa misteriosa.

E, nesse dia, cinco meses depois que Ela morreu, esqueceu por acaso seu diário aberto em cima da mesa, o qual seu namorado leu com desgosto. Ele viu que aqueles dias em que ela se afastou dele ela estava muito mais apaixonada. E, achando que Taís estava mentindo, terminou com ela com muita raiva.
Taís chorou. De medo, de tristeza, de incertezas. Seu namorado disse que ela estava apaixonada. Isso faria com que ela gostasse de meninas? Mas ela tinha certeza de que amava o namorado dela. Não era menina-macho, gostava de se vestir na moda, usar maquiagem, deixar o cabelo crescer. Não podia ser lésbica, não, ela era tão feminina, ela era uma garota comum demais para ser assim.
No entanto, ela se apaixonou por uma mulher mais intensamente do que por qualquer homem na vida.
O que seus pais iriam dizer? Quer dizer, ela tinha certeza que seus pais e seus amigos talvez ficassem surpresos, até porque ela teve um namoro de 3 anos, mas com certeza iriam aceitar. A família também aceitaria, exceto aquele tio chato e preconceituoso, talvez. Mas e ela mesma? Iria aceitar? Não conseguia olhar a própria imagem no espelho e se imaginar se relacionando com um monte de garotas. Ela era uma menina doce e meiga que quer ser a mulher do casal, ao lado do homem alto, forte e protetor. Não ao lado de uma mulher. A não ser que essa mulher fosse Ela.
Quando Ela morreu, Taís chorou e prometeu a si mesma nunca se envolver com nenhuma outra mulher. E agora, havia perdido os dois maiores amores de sua vida por causa de suas dúvidas. O que ela era? Bissexual? Maluca? Ela não sabia, e também não queria saber. Não queria que ninguém descobrisse o que ela passou. Mas não havia jeito.

No meio da madrugada, ligou para o namorado chorando e confessou tudo. Ela disse que apesar de tudo o que passou com Ela, ela ainda o amava muito e queria ele ao seu lado. Disse que não sabia o que sentir e não sabia quais suas preferências. A única coisa de que tinha certeza agora era de que queria ele.

No mesmo momento, passou pela sua cabeça que talvez Ela teria orgulho dessa atitude.

3 comentários:

  1. Gostei do texto, você escreve bem.

    Seguindo aqui e obrigada pelo comentário deixado no meu blog.

    Thoughts-little-princess.blogspot.com

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  2. Gostei ^^ Foi você mesma que escreveu?



    theicefairy.blogspot.com

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  3. Caramba, quanta criatividade para conseguir escrever tudo isso! Adorei <3 Beijos, Light As The Breeze

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