18 de setembro de 2012

Webnovela: A Chave - Parte II

Continuação da webnovela que postei aqui mês passado! Para ler a primeira parte clique aqui.
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Pois hoje finalmente achei a chave, enquanto revirava umas memórias, num lugar que nem sabia que existia: dentro de um envelope dentro do fundo falso de uma caixa de jóias dentro de um fundo falso no velho baú de álbuns de fotos de vovó. Curiosa, abri-o. E lá estava ela, prateada e cintilante, danada, parecendo que escaparia das minhas mãos e se esconderia para sempre se não a pegasse logo. Estava envolta na foto de uma Anabel novinha, 8 anos, antes de enlouquecer. Meu Deus, nunca houve criança mais linda. E, com cuidado, com a foto no bolso e a chave bem presa em minhas mãos, caminhei ao quarto misterioso. Girei a chave e, de olhos fechados, entrei, esperando que quando abrisse as fantasias de Anabel me envolvessem e eu pudesse me refugiar naquele mundo encantado. Fecho enfim a porta e abro os olhos, para a minha decepção. O que eu imaginava ser a Terra do Nunca, o quarto perfeito, divertido e arrumado de uma menina, a figuração do mais complexo cérebro de uma criança não passava de um depósito de mofo e caixas, muitas caixas de papelão. Havia uma cama, uma cômoda e uma mesa, completamente empoeiradas, e era pouquíssimo o espaço naquele quarto que não houvesse uma caixa de papelão incrivelmente pesada. E eu sei porque a caixa era pesada: não eram apenas suas coisas que estavam ali, mas também os seus amigos, aqueles que passaram a se esconder em uma caixa depois que tia Anabel foi para o hospital. Quando ela finalmente saiu dali, eles sabiam que nunca mais retornariam a vê-la, portanto jaziam como memórias, apenas memórias perdidas no tempo.
Abri uma das caixas. Havia uma boneca nua, careca e caolha de plástico, tantas vezes ninada por Anabel que parecia chorar pelo seu olho vazio a falta da sua mamãe de carne e osso. Havia também umas roupinhas de boneca e várias mamadeiras e comidinhas de plástico. Dentro daquele quarto, não sei por que, mas pareciam tão apetitosas que quase dei uma mordida!


Quase pude ver, apesar do ambiente triste, a pequena Anabel em seu vestido xadrez regando as margaridas da pequena e única janela do seu quarto. Havia alguma coisa ali; o quarto precisava ser remontado, aqueles amigos, aquelas memórias nunca existentes precisavam voltar à vida. Então arrastei as caixas e comecei a limpar loucamente, a tirar toda a poeira, para receber os queridos amigos de Anabel nas mesmas condições impecáveis que estava o quartinho de Anabel antes de sua partida. Afinal, não tinha mais nada a fazer mesmo, e nada melhor do que desvendar os mistérios da mente da minha tia, a qual despertou minha curiosidade tão recentemente. E quando algo atrai minha curiosidade, nunca escapa.


Abri bem a janela. As margaridas estavam, há muito tempo, murchas e mortas.


Sentia-me cansada, mas não podia parar. Abri caixa por caixa e procurei, primeiramente, a que continha o colchão, o travesseiro e o lençol da cama. Pensei que vovó tinha jogado fora com a instalação de Anabel no hospital, mas encontrei-os facilmente enrolados em uma caixa que chamava a atenção, por ser uma das maiores. Arrumei primeiro sua cama, depois fui criando um mundo para tantos brinquedos: uma parte para brincar de casinha, outra para brincar de escola, outra pra brincar de floresta, outra para brincar de reino encantado, etc. E, no fim, o quarto estava arrumado e limpo novamente. Alguém parecia me agradecer, mas devia ser apenas minha satisfação em visualizar a cena do quarto onde vivia minha tia. Por fim, joguei as caixas no lixo: nenhuma fantasia a mais tinha que ficar contorcida dentro de uma caixa apertada. E, veja só! No canteiro da janela, uma margarida parecia se recuperar, retomando a vida. Mas era só impressão minha.


Encontrei naquele quarto, de repente, uma sensação boa. Um lugar onde eu podia fugir da minha solidão e encontrar amigos imaginários e tão sozinhos quanto eu, porém muito mais reais do que aqueles da rua que mal se lembram do meu nome. FERNANDA, o meu nome. O meu nome é FERNANDA, é muito difícil? A fadinha de porcelana, coberta de purpurina, se vira para mim e fala: seu nome não é Fernanda. E eu digo: é Fernanda, sim, senhora. E você não tem direito de falar qual é o meu nome, você nem existe, é só uma boneca idiota. E ela responde, eu não existo? Pois eu sou muito mais real que você. Eu sei quem sou, e você quem é? Eu sou a FERNANDA, respondo, uma menina. Uma menina?, ela pergunta. Já vi tantas meninas por aí, quer dizer que você é igual a todas elas? Não, porque eu sou a Nanda, filha do José Roberto e da Claribel. E ela responde, Fernanda é só um nome, seus pais não são parte de você, quem é você? O que faz com que você seja você? E eu respondo, não sei, e não sei por que estou falando com uma boneca.

Eu enlouqueci? Eu estava falando em voz alta com uma boneca?


“Que grossa”, eu ouço. “Tão diferente da Margarida...”. Será que estou enlouquecendo??


Tranco rápido a porta, com medo de estar ouvindo coisas, e saio de lá rapidamente. Grito: “tem alguém aí?”, mas não ouço voz alguma, nem mesmo se encostar o ouvido na porta do quarto consigo ouvir algum murmurinho. Abro a porta de novo?
Por via das dúvidas, vou ao chaveiro e faço a cópia da chave. Agora a tenho, agora a carrego para onde quiser: minha passagem para um mundo mágico, minha passagem para entrar na mente de Anabel. Escondo a chave no lugar onde estava, e sei que não podia ficar mais um segundo dentro daquela casa, estava afogada em medo. Ligo para o meu pai, que esta hora já devia estar no caminho para casa, e anuncio meu retorno. Ele consente e diz que me aguarda. Não pego o ônibus, vou andando rapidinho para minha casa. Não é um caminho tão longo, afinal, é no mesmo bairro.
Chego em casa, mas meu pai não está. Logo vou dormir, pois apesar de serem 19h fiquei muito cansada na arrumação.
Às vezes eu queria dormir, dormir e dormir e nunca mais acordar, ficar para sempre presa nos meus sonhos. O único problema é que eu nunca sonho.

Mas não consigo dormir. Estremeço de medo, medo do fantasma da minha tia, medo de enlouquecer. Eu só quero dormir, repito para mim mesma, dormir, dormir.
Onde será que foi o meu pai??. O funeral já não devia ter acabado a essa hora?
Finjo que durmo, viro e me reviro, mas não consigo dormir enquanto não ouço o barulho da porta batendo, o barulho dos passos de meu pai, o seu beijo de boa noite... de repente sinto tanto medo que não tenho coragem nem mais de me mexer, devo ficar paralisada, ou algo de ruim vai acontecer. Começo a chorar baixinho. Cadê papai?
Sinto duas mãos puxarem minhas cobertas, mas não vejo de quem são, pois estou de olhos fechados. De repente, estou quentinha e tapada, e sinto no meu rosto um beijo familiar de boa noite. Estranho a porta não ter batido, não haver o barulho de chaves. Talvez papai quisesse fazer silêncio.

4 comentários:

  1. uau que show, adorei a novelinha.. comecei a acompanhar hoje sensacional teu blog, já to seguindo.. Da uma passadinha no meu blog ?
    -> Estilo 4 U

    Abração
    Não deixe de conferir...
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  2. Você escreve muito bem.. omg, fiquei impressionada..a cada linha, dá uma vontade de querer ler muito + . Parabéns


    Estamos seguindo. Poderia passar no nosso blog? blog-yolo (blogspot.com) beijos

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  3. Voce poderia ser escritora parece que vc tem a fonte da criatividade,nao conhecia essa webnovela mais li esse capitulo e fui logo procurar o primeiro!
    Beijos,

    Umdiarioconfuso.(blogspot.com.br)

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  4. OMG OMG OMG o capítulo que tanto esperava *w* não tive como vir aqui te ver, mas tava de olho nos capítulos, nem consigo vir comentar .-. mas to lendo *u* a espera do capitulo 3 ahuahuahuahuahuahuhua

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